Controle de Peso

5 Deficiências Nutricionais Mais Comuns na Obesidade

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5 Deficiências Nutricionais Mais Comuns em Pessoas com Obesidade

A obesidade é uma condição complexa e multifatorial, caracterizada pelo excesso de gordura corporal, que representa um sério risco à saúde. O senso comum pode sugerir que pessoas com obesidade consomem calorias em excesso, o que é frequentemente verdade. No entanto, o paradoxo nutricional reside no fato de que, apesar da ingestão calórica elevada, muitas vezes o consumo de micronutrientes essenciais (vitaminas e minerais) é insuficiente.

Essa disparidade entre o consumo de “calorias vazias” e a baixa densidade de nutrientes leva a um estado de desnutrição oculta, onde as deficiências nutricionais em obesidade se tornam um problema comum e, muitas vezes, subestimado. Identificar e corrigir essas deficiências é um passo crucial, não apenas para a perda de peso, mas principalmente para a melhoria da saúde metabólica e geral do indivíduo.

A seguir, exploramos as cinco deficiências nutricionais em obesidade mais prevalentes, seus impactos no organismo e como a atenção nutricional pode fazer toda a diferença no manejo dessa condição.

1. Deficiência de Vitamina D: A Epidemia Silenciosa

A Vitamina D, frequentemente chamada de “vitamina do sol”, é na verdade um hormônio essencial com papéis vitais que vão muito além da saúde óssea. Ela é crucial para a função imunológica, regulação do humor, saúde cardiovascular e, notavelmente, para a regulação do metabolismo de gorduras e glicose.

Por que a Vitamina D é uma das deficiências nutricionais em obesidade mais comuns?

  • Sequestro pelo Tecido Adiposo: A Vitamina D é lipossolúvel, o que significa que se dissolve em gordura. Em indivíduos com excesso de tecido adiposo, grandes quantidades de Vitamina D podem ser “sequestradas” e armazenadas na gordura, tornando-a biologicamente menos disponível para o resto do corpo. Isso exige que pessoas com obesidade, muitas vezes, precisem de doses mais elevadas para atingir os níveis séricos ideais.
  • Menor Exposição Solar: Pessoas com obesidade podem ter menor mobilidade ou passar mais tempo em ambientes fechados, reduzindo a exposição solar necessária para a síntese natural de Vitamina D.

Impacto da Deficiência: A baixa Vitamina D está associada a um risco aumentado de resistência à insulina, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e inflamação crônica, todos comorbidades comuns da obesidade.

2. Deficiência de Vitamina B12: Essencial para o Metabolismo e Nervos

A Vitamina B12 (cobalamina) é vital para a formação de glóbulos vermelhos, a função neurológica e a síntese de DNA. Sua absorção é complexa, dependendo de uma série de eventos bioquímicos no estômago e no intestino, incluindo a presença de ácido gástrico adequado e do Fator Intrínseco.

A Relação entre B12 e o Tratamento da Obesidade

Embora a B12 não seja diretamente “sequestrada” como a Vitamina D, sua deficiência é extremamente comum, especialmente:

  • Pós-Cirurgia Bariátrica: É a deficiência mais esperada após a cirurgia bariátrica (especialmente bypass gástrico), pois o procedimento altera drasticamente a produção de ácido e a área de absorção.
  • Uso de Metformina: A Metformina, um medicamento frequentemente prescrito para pacientes com obesidade e resistência à insulina ou diabetes tipo 2, pode interferir na absorção de B12 no íleo.

Impacto da Deficiência: Pode levar à anemia megaloblástica, fadiga extrema e, mais gravemente, a danos neurológicos irreversíveis (neuropatia). Monitorar a Vitamina B12 é fundamental no manejo das deficiências nutricionais em obesidade.

3. Deficiência de Ferro: O Fator de Energia e Oxigenação

O Ferro é o mineral mais abundante no corpo humano, essencial para o transporte de oxigênio (como parte da hemoglobina) e para a produção de energia nas células. A deficiência de Ferro (anemia ferropriva) é uma das deficiências nutricionais mais disseminadas globalmente e é particularmente comum em pessoas com obesidade.

Por que o Ferro entra na lista das deficiências nutricionais em obesidade?

  • Dieta Pobre em Nutrientes: Dietas ricas em alimentos processados e pobres em carnes vermelhas, vegetais folhosos e leguminosas podem não fornecer ferro suficiente.
  • Inflamação Crônica: A obesidade é um estado de inflamação crônica de baixo grau. A inflamação aumenta os níveis de hepcidina, um hormônio que impede a absorção de ferro e o libera dos estoques, levando à anemia da inflamação ou agravando a anemia ferropriva.

Impacto da Deficiência: Fadiga, fraqueza, palidez, dificuldades de concentração e queda na capacidade de exercício, o que prejudica a adesão a um plano de atividade física.

4. Deficiência de Cálcio: Mais do que Ossos

O Cálcio é o mineral necessário para a formação e manutenção dos ossos e dentes, mas também desempenha funções cruciais na contração muscular, coagulação do sangue e transmissão nervosa. A combinação de baixa ingestão e baixa absorção o torna uma preocupação séria.

5 Deficiências Nutricionais Mais Comuns em Pessoas com Obesidade

A Interconexão com a Obesidade

A deficiência de Cálcio e a de Vitamina D frequentemente andam juntas, sendo a deficiência de Vitamina D um fator limitante direto na absorção intestinal de Cálcio.

  • Baixa Ingestão de Laticínios: Muitos indivíduos reduzem o consumo de laticínios (ricos em Cálcio) em dietas restritivas ou por aversão, sem buscar fontes alternativas adequadas.
  • Má Absorção: Em procedimentos bariátricos, especialmente aqueles que desviam o duodeno (local primário de absorção de Cálcio), a suplementação se torna obrigatória.

Impacto da Deficiência: Risco aumentado de osteopenia e osteoporose, fraturas e, a longo prazo, problemas musculares e nervosos.

5. Deficiência de Ácido Fólico (B9) e Outras Vitaminas B

O Ácido Fólico (Vitamina B9) e outras vitaminas do Complexo B (como B1 e B6) são hidrossolúveis e essenciais para o metabolismo energético, a função cerebral e a saúde cardiovascular (ajudando a metabolizar a homocisteína).

A Falta de Vitaminas B nas Dietas Ocidentais

As dietas ocidentais típicas, associadas à obesidade, são frequentemente ricas em açúcares e gorduras e pobres em alimentos integrais, vegetais folhosos e leguminosas, que são as principais fontes dessas vitaminas.

  • Consumo de Calorias Vazias: O alto consumo de alimentos ultraprocessados fornece muitas calorias, mas é extremamente pobre em vitaminas do complexo B.
  • Aumento da Necessidade Metabólica: O próprio estado de hipermetabolismo e as comorbidades (como resistência à insulina) podem aumentar a demanda do corpo por estas vitaminas para processos metabólicos.

Impacto da Deficiência: Fadiga, fraqueza, problemas de pele e, no caso do Ácido Fólico, risco de anemia megaloblástica e, junto com a B12, aumento da homocisteína, um fator de risco cardiovascular.

Estratégias para Corrigir as Deficiências Nutricionais em Obesidade

A chave para corrigir as deficiências nutricionais em obesidade reside em uma abordagem multifacetada que combina dieta, suplementação e monitoramento médico. Não basta apenas reduzir calorias; é imperativo aumentar a densidade nutricional da dieta.

  1. Reeducação Alimentar Focada em Nutrientes: Priorize alimentos minimamente processados, como frutas, vegetais (especialmente folhosos), leguminosas, proteínas magras e grãos integrais. Estes são ricos nas vitaminas D, B12, Ferro, Cálcio e Ácido Fólico.
  2. Suplementação Individualizada: A suplementação é frequentemente necessária para corrigir deficiências pré-existentes, especialmente de Vitamina D e, em casos de cirurgia bariátrica ou uso de certos medicamentos, Vitamina B12, Ferro e Cálcio. É vital que a dosagem e o tipo de suplemento sejam orientados por um nutricionista ou médico.
  3. Monitoramento Laboratorial Regular: Exames de sangue periódicos são a única maneira de identificar e acompanhar o tratamento das deficiências. Não espere pelos sintomas.

O tratamento da obesidade não é apenas sobre o peso na balança; é sobre a saúde interna e a qualidade de vida. Abordar essas deficiências nutricionais em obesidade é um passo fundamental para garantir que a perda de peso seja sustentável, segura e que melhore, de fato, o bem-estar geral do paciente.

5 Deficiências Nutricionais Mais Comuns na Obesidade

FAQ (Perguntas Frequentes)

A obesidade causa desnutrição?

Sim, é comum que a obesidade coexista com a desnutrição, um fenômeno conhecido como “fome oculta”. Embora a ingestão calórica seja alta, a dieta geralmente é composta por alimentos de baixa densidade nutricional (calorias vazias), resultando em importantes deficiências nutricionais em obesidade, como as de Vitamina D, Ferro e vitaminas do Complexo B.

Pessoas com obesidade precisam de doses maiores de Vitamina D?

Frequentemente, sim. Como a Vitamina D é lipossolúvel e se armazena no tecido adiposo, em indivíduos com excesso de gordura corporal, o nutriente fica “sequestrado” e menos disponível para a circulação sanguínea. Isso exige uma suplementação com doses mais elevadas e monitoramento constante para atingir os níveis séricos ideais e corrigir as deficiências nutricionais em obesidade.

A cirurgia bariátrica piora as deficiências nutricionais?

Sim, a cirurgia bariátrica é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de deficiências, pois altera drasticamente a anatomia do sistema digestivo, especialmente a absorção no estômago e intestino delgado. Deficiências de Vitamina B12, Ferro, Cálcio e Vitamina D se tornam quase universais e exigem suplementação vitalícia.

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Termogênicos funcionam? Analisando a ciência por trás dos queimadores de gordura

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Termogênicos funcionam

A busca pelo corpo ideal e pela perda de peso eficiente movimenta bilhões de reais todos os anos na indústria de suplementos. Entre as promessas de “fórmulas mágicas”, uma dúvida persiste no topo das pesquisas: termogênicos funcionam mesmo ou são apenas marketing?

Se você já se sentiu tentado a comprar um pote colorido com promessas de “derreter gordura”, este artigo é para você. Vamos mergulhar na fisiologia humana e nos estudos científicos para entender o que esses produtos fazem no seu organismo.

O que são Termogênicos e como eles agem?

Para entender se os termogênicos funcionam, primeiro precisamos definir o que é a termogênese. Trata-se de um processo biológico natural onde o corpo queima calorias para produzir calor. Esse processo ocorre constantemente para manter nossa temperatura corporal em torno de 36,5°C a 37°C.

Os suplementos termogênicos, também conhecidos como “queimadores de gordura”, contêm substâncias que visam acelerar esse processo. Eles atuam principalmente através do aumento da taxa metabólica basal (TMB). Em termos simples: eles tentam fazer seu motor interno girar mais rápido, gastando mais combustível (calorias) mesmo em repouso.

O mecanismo de ação no sistema nervoso

A maioria desses suplementos atua estimulando o sistema nervoso central. Ao aumentar a liberação de catecolaminas, como a adrenalina e a noradrenalina, o corpo entra em um estado de “luta ou fuga”. Isso resulta em:

  • Aumento da frequência cardíaca.
  • Elevação da pressão arterial.
  • Mobilização de ácidos graxos dos tecidos adiposos para serem usados como energia.

A Ciência Responde: Termogênicos funcionam para emagrecer?

A resposta curta é: sim, mas com ressalvas importantes. A ciência mostra que os termogênicos funcionam como um auxílio, não como uma solução isolada.

Estudos publicados em periódicos de nutrição esportiva indicam que ingredientes específicos podem elevar o gasto calórico diário em cerca de $5\%$ a $10\%$. Embora pareça pouco, ao longo de meses, isso pode representar uma perda de peso adicional significativa se houver um déficit calórico pré-existente.

O papel do déficit calórico

Nenhum suplemento no mundo consegue anular uma dieta hipercalórica. Se você consome 3.000 calorias e queima 2.500, um termogênico que ajude a queimar mais 100 calorias ainda deixará você com um saldo positivo de 400. Portanto, a afirmação de que termogênicos funcionam é verdadeira apenas quando eles são inseridos em um contexto de estilo de vida saudável.

Principais ingredientes que comprovam que termogênicos funcionam

Nem todos os produtos no mercado são iguais. Para saber se o seu suplemento é eficaz, você deve procurar por estes ingredientes validados pela ciência:

1. Cafeína Anidra

A rainha dos termogênicos. A cafeína é um potente estimulante que aumenta o estado de alerta e a oxidação de gordura. Ela bloqueia os receptores de adenosina no cérebro, reduzindo a percepção de esforço durante o treino.

2. Extrato de Chá Verde (EGCG)

Rico em catequinas, especialmente a epigalocatequina galato (EGCG). Estudos sugerem que o chá verde inibe a enzima que decompõe a noradrenalina, prolongando o sinal para a queima de gordura.

3. Capsaicina (Pimenta)

A substância que dá o ardor à pimenta aumenta a temperatura interna do corpo e pode reduzir o apetite. A ciência comprova que a ingestão de capsaicinoides estimula o consumo de oxigênio e a oxidação lipídica.

4. L-Carnitina

Embora tecnicamente não seja um termogênico “estimulante”, ela atua no transporte de gordura para dentro das mitocôndrias, onde são queimadas para gerar energia.

Mitos e Verdades sobre os Queimadores de Gordura

“Eles queimam gordura localizada”

Mito. Não existe substância ingerida que escolha de onde a gordura será retirada. O corpo mobiliza gordura de forma sistêmica, geralmente baseada na genética individual.

“Quanto mais suor, mais emagrecimento”

Mito. O suor é apenas um mecanismo de resfriamento. Suar mais não significa que você está perdendo gordura; você está perdendo água e eletrólitos. O emagrecimento real ocorre através da oxidação de gordura pela respiração e processos metabólicos.

“Termogênicos funcionam melhor em jejum”

Relativo. Treinar em jejum com termogênicos pode aumentar a lipólise (quebra de gordura), mas também pode causar desconforto gástrico e tonturas em pessoas sensíveis.

Termogênicos funcionam

Como tomar termogênicos para obter resultados reais?

Para garantir que os termogênicos funcionam no seu protocolo de emagrecimento, siga estas diretrizes básicas:

  1. Ciclar o uso: O corpo cria tolerância a estimulantes como a cafeína. Use por 4 a 6 semanas e faça uma pausa de 2 semanas.
  2. Timing é tudo: O melhor horário costuma ser 30 a 45 minutos antes do treino ou logo ao acordar. Evite o uso após as 18h para não comprometer o sono.
  3. Hidratação: Como eles aumentam a temperatura corporal e podem ter efeito diurético, beber água é fundamental.
  4. Consulte um profissional: Pessoas com hipertensão, arritmia ou ansiedade devem evitar esses produtos.

Possíveis efeitos colaterais e contraindicações

Mesmo sabendo que os termogênicos funcionam, é preciso estar atento aos sinais do corpo. O excesso de estimulantes pode causar:

  • Insônia e distúrbios do sono.
  • Taquicardia (coração acelerado).
  • Ansiedade e nervosismo.
  • Problemas gastrointestinais.

Quem deve evitar? Gestantes, lactantes, crianças, idosos e pessoas com condições cardíacas pré-existentes.

Conclusão: Vale a pena investir?

Afinal, termogênicos funcionam? Sim, eles são ferramentas úteis que podem acelerar o metabolismo e dar a energia necessária para treinos mais intensos. No entanto, eles são a “cereja do bolo”. Se a base (alimentação e exercício) não estiver sólida, o suplemento será apenas um gasto desnecessário.

Se você está estagnado em um platô de perda de peso e já ajustou sua dieta, um bom termogênico pode ser o empurrão que faltava para atingir seus objetivos.

FAQ: Dúvidas frequentes sobre Termogênicos

Em quanto tempo os termogênicos começam a fazer efeito?

Os efeitos estimulantes (energia e foco) são sentidos em 30 minutos. Já os efeitos na composição corporal (perda de peso) costumam ser visíveis após 4 a 8 semanas de uso contínuo aliado à dieta.

Posso tomar termogênico e não malhar?

Os termogênicos funcionam elevando a taxa metabólica mesmo em repouso, mas o resultado será mínimo. O verdadeiro potencial desses suplementos é liberado quando combinados com atividade física, que maximiza a oxidação de gordura.

Termogênico natural funciona igual ao suplemento?

Alimentos como café, pimenta e gengibre têm propriedades termogênicas, mas em concentrações muito menores que os suplementos. Eles são ótimos para a saúde, mas para um efeito de queima de gordura acentuado, os suplementos isolados são mais potentes.

O termogênico perde o efeito depois de um tempo?

Sim, devido à adaptação dos receptores de cafeína. Por isso, é recomendado o uso cíclico para garantir que os benefícios continuem ativos.

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Motivação e mentalidade no emagrecimento

Food noise: quando os pensamentos sobre comida não dão trégua

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Food noise quando os pensamentos sobre comida

Você já sentiu como se houvesse uma “estação de rádio” interna tocando constantemente músicas sobre comida? Mesmo após uma refeição satisfatória, sua mente começa a planejar o próximo lanche, ou você se vê lutando contra o desejo incessante de abrir a geladeira sem fome física. Esse fenômeno tem nome: food noise.

Embora o termo tenha ganhado popularidade recentemente com o advento de novas medicações para perda de peso, o food noise é uma realidade antiga para milhões de pessoas. Ele não é uma falha de caráter ou falta de força de vontade, mas sim um processo biológico e neurológico complexo. Neste artigo, vamos mergulhar fundo no que causa esse ruído e como é possível silenciá-lo.

O que é Food Noise (Ruído Alimentar)?

O food noise pode ser definido como a intrusão persistente e onipresente de pensamentos relacionados à comida. Diferente da fome fisiológica — que surge quando o corpo precisa de energia —, o ruído alimentar é uma fome mental. Ele se manifesta como uma obsessão constante sobre o que comer, quando comer e quanto comer.

Para quem vive com isso, a relação com a comida é exaustiva. Não se trata apenas de gostar de comer, mas de ser incapaz de ignorar os estímulos alimentares ao redor. É o impulso de terminar um pacote de biscoitos só porque ele está na despensa, ou a dificuldade de se concentrar no trabalho porque o cérebro está focado no doce que ficou na cozinha.

A Ciência por trás do Ruído Alimentar

Para entender por que algumas pessoas sofrem mais com o food noise do que outras, precisamos olhar para o cérebro, especificamente para o sistema de recompensa e os sinais hormonais.

O papel da dopamina e do sistema de recompensa

O nosso cérebro é programado para buscar prazer, e a comida — especialmente a ultraprocessada, rica em gordura e açúcar — libera grandes quantidades de dopamina. Em indivíduos com um “ruído” mais alto, esse sistema de recompensa pode estar hiperestimulado. O cérebro antecipa o prazer da comida de forma tão intensa que o pensamento se torna obsessivo.

Hormônios e a sinalização de saciedade

O food noise também está ligado à forma como o corpo sinaliza a saciedade. Hormônios como a leptina (que avisa que estamos satisfeitos) e a grelina (o hormônio da fome) precisam estar em equilíbrio. Quando há uma resistência à leptina ou desequilíbrios nos receptores de GLP-1 no cérebro, o sinal de “pare de pensar em comida” simplesmente não chega com clareza.

Como o Food Noise afeta a saúde mental e física

Viver com pensamentos constantes sobre comida gera uma carga cognitiva imensa. Isso pode levar a:

  1. Fadiga de Decisão: Passar o dia inteiro resistindo a impulsos drena a energia mental.
  2. Culpa e Vergonha: Muitas pessoas acreditam que a dificuldade em parar de comer é apenas falta de disciplina, o que afeta a autoestima.
  3. Compulsão Alimentar: O acúmulo desse ruído pode culminar em episódios de perda de controle.

Estratégias Práticas para Lidar com o Food Noise

Embora possa parecer impossível desligar esses pensamentos, existem abordagens eficazes para reduzir o volume do food noise.

1. Alimentação Consciente (Mindful Eating)

O treinamento da atenção plena ajuda a diferenciar a fome física da fome emocional. Ao comer com presença, você ensina ao cérebro que a experiência alimentar tem um começo, meio e fim, reduzindo a busca incessante por estímulos posteriores.

2. Estabilização do Açúcar no Sangue

Picos e quedas bruscas de glicose podem intensificar o food noise. Priorizar proteínas, fibras e gorduras boas em todas as refeições ajuda a manter os níveis de energia constantes, o que acalma os sinais de urgência do cérebro.

3. Sono e Manejo do Estresse

A privação de sono aumenta os níveis de grelina e reduz a capacidade do córtex pré-frontal de tomar decisões racionais. Em outras palavras, quanto menos você dorme, mais alto o ruído alimentar se torna.

4. Ajuda Profissional e Medicações

Atualmente, o tema ganhou destaque devido aos análogos de GLP-1 (como a semaglutida). Essas medicações atuam diretamente nos centros de saciedade do cérebro, “desligando” o food noise para muitos pacientes. No entanto, o uso deve ser estritamente acompanhado por um médico endocrinologista.

Food noise quando os pensamentos sobre comida

O Impacto dos Alimentos Ultraprocessados

Não podemos falar de food noise sem mencionar o ambiente em que vivemos. A indústria alimentícia projeta produtos com o chamado “ponto de êxtase” (bliss point), uma combinação perfeita de sal, açúcar e gordura feita para viciar o paladar. Esses alimentos são gatilhos diretos para o ruído mental, tornando quase impossível comer apenas uma porção pequena.

Conclusão: É possível viver sem o ruído?

Silenciar o food noise não acontece do dia para a noite, mas o primeiro passo é a autocompaixão. Entender que esse processo tem uma base biológica retira o peso da culpa e permite buscar o tratamento correto, seja ele nutricional, psicológico ou médico.

Ao adotar hábitos que regulam seus hormônios e protegem sua saúde mental, você começa a retomar o controle da sua rotina, deixando que a comida volte ao seu lugar de origem: uma fonte de nutrição e prazer equilibrado, e não uma obsessão constante.

Perguntas Frequentes

O food noise é o mesmo que fome?

Não. A fome é um sinal físico de necessidade de energia. O food noise é uma obsessão mental e constante por comida, que ocorre mesmo quando o corpo está devidamente nutrido.

O estresse pode aumentar o ruído alimentar?

Sim. O cortisol elevado pode estimular o sistema de recompensa do cérebro a buscar alimentos reconfortantes (confort food), intensificando os pensamentos sobre comida.

Exercícios físicos ajudam a diminuir o food noise?

Sim. A atividade física ajuda a regular a sensibilidade à insulina e a liberação de neurotransmissores como a serotonina, que podem ajudar a estabilizar o apetite e o foco mental.

Existe cura para o food noise?

Mais do que uma “cura”, existe o gerenciamento. Através de mudanças na dieta, terapia comportamental e, em alguns casos, medicação, é possível reduzir o ruído a um nível quase imperceptível.

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Obesidade como uma doença crônica: O fim do mito da força de vontade

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obesidade como uma doença crônica

Por décadas, a sociedade olhou para o excesso de peso como uma falha de caráter ou uma simples escolha individual. No entanto, a medicina moderna trouxe uma perspectiva transformadora: a obesidade como uma doença crônica. Essa mudança de paradigma é fundamental para que pacientes parem de carregar a culpa e comecem a buscar tratamentos baseados em evidências científicas, e não em dietas restritivas milagrosas.

Por que a obesidade não é uma escolha?

A ideia de que basta “fechar a boca e malhar” ignora a complexidade do corpo humano. Quando falamos da obesidade como uma doença crônica, estamos nos referindo a uma condição multifatorial, onde genética, hormônios, metabolismo e ambiente interagem de forma complexa.

O corpo humano possui mecanismos de defesa biológica que tentam manter o peso mais alto após o ganho de gordura. Isso ocorre porque o hipotálamo (uma região do cérebro) ajusta o “set point” do peso, fazendo com que o metabolismo desacelere e a fome aumente sempre que tentamos perder peso rapidamente. Portanto, tratar a condição exige muito mais do que apenas determinação mental.

O Papel da Biologia no Controle do Peso

Entender a obesidade como uma doença crônica envolve olhar para os mecanismos hormonais. Dois hormônios principais jogam esse jogo: a leptina e a ghrelina.

  1. Leptina: Produzida pelas células de gordura, ela sinaliza ao cérebro que estamos satisfeitos. Em pessoas com obesidade, pode ocorrer a “resistência à leptina”, onde o cérebro não recebe o sinal de saciedade.
  2. Grelina: O hormônio da fome. Em processos de perda de peso, os níveis de ghrelina sobem drasticamente, forçando o indivíduo a sentir uma fome fisiológica incontrolável.

Esses processos biológicos provam que a biologia muitas vezes vence a vontade. Sem o suporte adequado, o paciente entra no efeito sanfona, o que agrava ainda mais o quadro inflamatório do corpo.

As Consequências de Ignorar a Obesidade como uma Doença Crônica

Quando não tratamos a obesidade como uma doença crônica, abrimos porta para diversas comorbidades. A obesidade é uma condição de inflamação sistêmica de baixo grau. Isso significa que o tecido adiposo em excesso libera substâncias pró-inflamatórias que afetam todos os órgãos.

Principais riscos associados:

  • Diabetes Tipo 2: A resistência à insulina é uma consequência direta do excesso de gordura visceral.
  • Doenças Cardiovasculares: Hipertensão e acúmulo de placas de gordura nas artérias.
  • Problemas Articulares: O sobrecarga mecânica destrói cartilagens, gerando dores crônicas.
  • Saúde Mental: O estigma do peso leva à depressão e transtornos de ansiedade.
obesidade como uma doença crônica

O Estigma e o Preconceito: Barreiras no Tratamento

Infelizmente, até mesmo no ambiente médico, o preconceito existe. Chamar a atenção para a obesidade como uma doença crônica ajuda a combater a gordofobia médica. Muitas vezes, o paciente evita ir ao consultório porque sabe que qualquer queixa será reduzida ao seu peso.

O tratamento eficaz começa com a empatia. Quando o profissional entende que o paciente está lutando contra uma disfunção metabólica e não contra a preguiça, as chances de adesão ao tratamento aumentam exponencialmente.

Como o ambiente influencia?

Vivemos em um ambiente “obesogênico”. Alimentos ultraprocessados são mais baratos e acessíveis, e o estilo de vida sedentário é a norma. Combater a obesidade como uma doença crônica também requer políticas públicas que facilitem o acesso a alimentos frescos e espaços para atividade física.

Estratégias de Tratamento a Longo Prazo

Se a obesidade é crônica, o tratamento também deve ser contínuo. Não existe “cura” definitiva no sentido de voltar a comer sem controle e manter o peso, mas existe o gerenciamento.

  • Acompanhamento Multidisciplinar: Endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos devem trabalhar juntos.
  • Farmacologia Moderna: Medicamentos que atuam na saciedade são ferramentas legítimas, assim como remédios para pressão alta são para hipertensos.
  • Atividade Física Regular: Não apenas para queimar calorias, mas para melhorar a sensibilidade à insulina e a saúde mental.
  • Higiene do Sono: Noites mal dormidas desregulam os hormônios da fome, sabotando qualquer dieta.

Reconhecer a obesidade como uma doença crônica é libertador. Permite que o paciente foque no que realmente importa: a melhora dos parâmetros de saúde e a qualidade de vida, e não apenas no número que aparece na balança.

FAQ: Dúvidas Comuns sobre a Obesidade

A obesidade tem cura?

Diferente de uma infecção, a obesidade é uma doença crônica recorrente. Isso significa que ela pode ser controlada e o paciente pode viver com saúde e peso normal, mas os cuidados com alimentação e estilo de vida devem ser mantidos para evitar a recidiva.

Medicamentos para obesidade causam dependência?

Não. O que ocorre é que, ao interromper o tratamento de uma doença crônica, os sintomas (ganho de peso) retornam. Assim como um diabético precisa de insulina, o paciente com obesidade pode precisar de suporte farmacológico contínuo.

Por que é tão difícil manter o peso perdido?

Por causa da adaptação metabólica. O corpo entende a perda de gordura como uma ameaça à sobrevivência e reduz o gasto calórico em repouso. Por isso, o tratamento da obesidade como uma doença crônica foca na manutenção a longo prazo.

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